Sunday, July 24, 2005

Cry me a river

“ Cry me a river... I cried a river over you”


Nem lembro mais o porque do nome da banda. Acho que foi a sonoridade. Ao nosso inglês precário parecia bonito - cigarros e azuis, tristezas e blues, como os que cantávamos imitando Billie.
Então ficou Cigarettes Blues, mesmo depois que aprendemos alguma coisa das letras que cantávamos pelos bares da vida. Nas estradas perdemos a ilusão e o blues. Ficaram os cigarros, as tosses noturnas, pastilhas meladas nos bolsos e a guitarra desconjuntada do Billie.
Billie se chamava Edvaldo, morava em Cachambi e tinha um dente de ouro lateral que aparecia quando cantava. O cabelo continuou comprido, sobrevivendo à moda e ao desencanto.
Ninguém se interessava pela música que amávamos, os marginais dos bares sórdidos queriam lamentos caipiras e mais recentemente, sambas abolerados, ou pior, sambas rurais, um pastiche absurdo de ritmos, transformados em sopa cáustica que descia pelos nosso ouvidos como lâmina. Fazer o que? beber e fumar que era a sobrava após a divisão dos ganhos.
Mimi desistiu primeiro. Arrumou um fazendeiro rico, na versão sonhadora dela, um sitiante remediado, segundo as más línguas das banguelas.
Ficamos os três sobreviventes: Marina, Billie e eu.
Marina era bonita, podia ter escolhido vida melhor, mas foi atrás dos Cigarettes bues e das luzes da ribalta. Ficou arrastando perdidas ilusões pelas sórdidos palcos das cidadezinhas minúsculas, em periferias empoeiradas. Seu cabelo brilhante permaneceu com a ajuda da química, mas uma auréola grisalha justificava os traços gastos, as olheiras escuras e a voz rouca.
Um dia Mimi voltou e não perguntamos nada. Mais triste, mais velha.
Tudo isto eu podia suportar. Suportei sempre, mesmo quando o sonho virou pesadelo, pior, virou tédio, vazio, vozes na madrugada, vaias, conversas paralelas enquanto cantávamos, só de pirraça, nossos antigos blues na guitarra desafinada.
Mas quando o cara começou a nos descompor, quando levantou da mesa com sua garrafa de uísque, sua arrogância de freguês rico, quando nos chamou Cigamerdas blues, eu não agüentei.
Lembro de tudo como num filme – eu andando em câmera lenta até a nossa mesa, abrindo a bolsa, pegando o velho revólver companheiro da estrada.. e atirando ...atirando, atirando e atirando... uma bala para a dor... para a humilhação, pelos sonhos desfeitos, outra ainda pelas roupas rasgadas, os cabelos compridos, o dente de ouro, os cigarettes das madrugadas, os blues esfarrapados.. até descarregar o tambor, até me esvair em lágrimas quentes que carregaram embora a visão do sangue, da noite, da vida.
Não atirei no cara, entende?.. não, não foi nele. Foi em nós.
Nos cigarette blues.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Esse seu espacinho ta muito di mais. Sempre que eu tiver passando por essa via darei uma paradazinha para respirar esse encantamento.
beijos
José Mattos

10:08 AM  
Blogger Leila Silva said...

Mhel,
Olha, tinha acabado de ler aqui na nossa Antologia dos Anjos...´Cry me a river´....
Puxa, vc está se saindo mto bem nesse blog, enqto eu procurava uma explicção vc já colocou os links todos. Beijos
Leila

6:39 PM  
Anonymous Anonymous said...

sugar blues

12:42 AM  

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