Sunday, October 02, 2005

DO PÓ

Do Pó. Não tinha nome ou sobrenome conhecido.

Do pó, como seus companheiros de calçada na praça da Liberdade mal vigiada. Magra demais, mirrada demais, lutara para sobreviver, o corpo não acompanhara - ficaria perdido na meninice como se nunca pudesse entender o que era ser adolescente.

O universo eram os bancos e as flores empoeiradas de sol baixo. Não tinha luas preferidas nem estrelas para apontar. Apenas o sobreviver seco, o barato que enganava a fome.

Amigos, poucos - do coração nenhum. Andava na banguela para desviar de trombadas e mesmo assim elas vinham. Pneumonia teve quatro. Do hospital guardou o cheiro de urina e promiscuidade. E um doce de abóbora que uma dona bacana descolara pra ela. Coisa de machucar de tão gostoso, descendo macio na garganta. Quando a febre baixou, nem esperou a assistente social, correu de volta para a Liberdade. A única que conhecia. Empoeirada e gasta, mas sua.

Do pó. Roubava dos velhos que caiam em rasteiras, preferia senhoras, sempre tinham dinheiro e outras coisas na bolsa. Uma vez achou um batom cintilante. Pintou os lábios e escreveu na calçada. Olhou seu reflexo na poça suja entre os carros.. era roliúdi, artista da Globo. Vira novelas no abrigo, outros retalhos, na época das internações. À noite, as televisões ficavam desligadas. A festa rolava aqui fora. No cheiro adocicado do fumo que queimava o pulmão. No crack, no pó. Poeira de estrelas. Cintilantes vazios entre seus pés de menina machucada. O que havia além de mim?

Os homens chegavam e pegavam as mais bonitas, depois distribuíam o pó, arrancavam o troco todo do trampo na calçada. Do pó era muito magra, muito menina para ser de serventia na rua. Davam uns empurrões nela e mandavam andar.

A morte foi curta e sem drama. Bala perdida em tiroteio na avenida, quem mandou estar na trajetória do destino? Caiu sem barulho como vivera. Silencio e poeira levantando. Bem devagar. Um vento maligno e doce percorria a rua.

Caixão de indigente, acompanhamento de ninguém.

Do fundo da cova, ouviu o padre dizer - Descanse em paz...

A poeira entrava pelos pulmões, ardia nas artérias, subia pelas entranhas... Do pó gemeu pela primeira vez - Não quero! Mas o pó perseguia seu corpo , sua alma, se alastrava pela terra, inundava a calçada, percorria a praça. Poeira incansável, obstinada, carregou-se para o alto, despertou planetas, atravessou galáxias...

E Deus espirrou.

6 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Tu veio do pó e ao pó retornarás. Agora a grande sacada foi o espirro de Deus no final. Impar.

Abraços

José Mattos

Ps- Tomei a liberdade de coloquei seu link lá no meu cantinho que estou encrementando. Veja lá, se não gostar eu retiro, beleza?

http://www.josemattos.prosaeverso.net/

9:19 AM  
Blogger parla marieta said...

Mhel, esse seu texto me lembra alguém. Vou mandar pro meu filho, que tem uma teoria sobre "a confirmação da depressão", o Felipe, sabe?
Vou mandar o link, quem sabe ele perde a preguiça e comente.
Tem razão o Zé Matos. O espirro de Deus é fantástico.
beijos de quem a admira muito.

11:53 AM  
Anonymous Anonymous said...

Forte, chocante e melancolicamente belo.

Beijo

Ly

7:33 AM  
Blogger Fernando Palma said...

Muito bom texto. Expressa algo triste com beleza. Gostei do trecho "Amigos, poucos - do coração nenhum"

fernando.

5:42 AM  
Blogger parla marieta said...

Estou sentindo sua falta.
Hoje o Beto comprou 4 livros seus:
um pra mim, um pra ele, um pro Cyr e um pra Vivi.
uauauaua
não vejo a hora de por as mãos.
ele encontrou!

6:49 PM  
Blogger MilaF said...

Simplesmente maravilhoso.

Sabe quando a palavra falha?

Quando a gente se apaixona por um cara, uma música, um momento, um conto.

Beijos

7:11 AM  

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