Monday, September 19, 2005

A Promessa do Tigre


As grades enferrujadas rangeram sob o peso da mão, rasgando os galhos que a prendiam. Anos de decadência cobriram de pátina verde o muro e o santuário. No jardim esquecido um odor de eternidade, bafio úmido de decomposição e renascimento.
O esplêndido El Tigre repousava, diante dos seus olhos deslumbrados.
Apesar do castigo dos anos permanecia o brilho da esmeralda dos olhos, onde os últimos raios de sol desfaleciam, anunciando as primeiras estrelas.
O peregrino caiu de joelhos.

****

A estrada arrastava-se, interminável reta poeirenta. O sol causticante amainava seu rubor num poente vermelho que se confundia com a terra ao redor. Trezentos e sessenta graus de fogo.
Aos poucos, firmando a vista com cuidado percebeu a sombra formada pelas árvores do santuário. Depois de um dia inteiro de caminhada, ia conhecer El Tigre. Estava chegando, afinal.

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Na fornalha do meio-dia, o amarelo transformara as árvores ressequidas em fantasmas negros contra seu brilho cegante. Nem uma folha se movia.
O calor era absoluto manto de espessa córnea. Não sabia como chegar lá. Não havia mapas, não havia rotas, ninguém nunca voltara do santuário. Nem mesmo tinha certeza se existia, realmente, um santuário ou fora um sonho do seu coração a palavra de El tigre no seu ouvido.
Mesmo assim , preparara o manto e o cajado e estava ali, caminhando em direção a ele.

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Amanhecia, quando retirou os objetos do altar. Bebeu da água da fonte, Dobrou os panos sagrados e separou os pães secos e o cantil para a longa viagem.

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A noite estava silenciosa de presságios. Pela última vez encarou o tigre, o desânimo encerrando seu coração. A estátua, uma cópia em miniatura daquela que deveria existir no santuário perseguido, brilhava à luz das estrelas e das inúmeras velas ao seu redor.
Com as mãos cansadas, abriu o livro tantas vezes visitado, tantas vezes manuseado e repetiu a invocação.
Um arrepio percorreu seu corpo magro, acentuando os mistérios
Com a voz de séculos perdidos, El Tigre sussurrou no seu ouvido
Vá em peregrinação ao Santuário de Ilah Khaden. Lá encontrarás o que procuras – a vida eterna, que significa o Eterno Retorno ao ponto de partida.

O peregrino caiu de joelhos.

Foto do Portão velho de Leila S http://cadernos-da-belgica.blogspot.com


3 Comments:

Blogger Samuel said...

Beijos na boca, Deusa Afro-nórdica...
Deliciosa a perversão do tempo. Se ele, como tudo, é relativo, porque seguirmos as convenções impostas pelos outros, porque não tornar absolutamente caótico aquilo que já é, apenas está visto como ordenado?
Sam

9:18 AM  
Anonymous marcelo said...

beleza de tigre, Mhel...lembrei Kafka: "Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso se repete sempre; finalmente, torna-se previsível e incorpora-se ao ritual." Grande beijo e parabéna pelo lançamento...

8:01 PM  
Anonymous tania said...

Mhel,"A promessa do Tigre" possui uma beleza indescritível.Imagina-se o portal,ouve-se o rangido e o rompimento das folhagens que o prendiam...
Ir em busca de um objetivo,lutar pelo que deseja, faz do homem um ser maior.
Bjos,muito lindo e a fotografia é perfeita.
Tania

7:16 AM  

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