Saturday, November 05, 2005

A cabeça na cômoda, cercada por suas conchas e fina areia furta-cor, anunciou com olhos de mar encapelado:
- As anêmonas floresceram perto daqui.

Olhei para ela e meu coração se alagou. Lembrava bem a última vez. O oceano brilhava laranja, onde o braço do rio Molah se enfiava como um amante. O céu pesava azul.

A cabeça iniciou uma canção romântica. Brisas africanas vieram em ondas sobre mim. Cabeça maldita! Do lado de fora, areia escaldava.

O mar permanecia calmo mas... o que era a espuma que se avistava onde o horizonte inaugurava o céu?...
Bobagens. Anêmonas não florescem duas vezes.

Apanhei um regador e comecei a molhar a cabeça. Ela riu, delicada, os olhos ficaram cor de jade.

- Acredite em mim.

Não respondi, ocupada em trocar a areia e lustrar as conchas.

- Anêmonas – ela repetiu com voz doce – enormes...
Recomeçou a cantarolar, com voz umedecida.

Sons percorriam a casa, vozes do crepúsculo. Por toda parte floresciam, sussurravam. Dediquei-me a limpar os móveis com óleo fino de Aslamabad enquanto a tarde morria.

A espuma na fímbria do horizonte estava maior. Ou era apenas impressão?
Abri as janelas, vasculhei o poente avermelhado. Areia e águas. Rio barrento correndo silencioso para o mar alaranjado.
O fio branca se tornara um dedo nos confins do avistamento.
Meu coração deu saltos, cavalo selvagem.

A cabeça fechara os olhos de água e murmurava baixo:
- Está vindo, está vindo...

Estrelas despontaram no céu - devagar, depois incrivelmente rápido, desabando sobre meu olho que vigiava a brancura, quebrando a escuridão.

- A-nê-mo-nas flo-res-cen-do - escandia a cabeça sobre a cômoda com voz rouca.

Eu me recusava a acreditar. Senti frio e fechei a janela apagando a lembrança da faixa alva sobre o oceano.
Entrei na casa deserta – o perfume de flor se acentuara. Meus seios doíam, os braços pesavam toneladas.
Subi, me atirei na cama e acreditei desaparecer na dor.

Acordei com a voz esganiçada da cabeça na cômoda. Chovia ao redor de mim.
Desci e encontrei tudo boiando na lama escura.

Ela repetia, como um disco quebrado:
Anêmonas floresceram perto daqui, bem perto daqui...anêmonas...

Apanhei um balde para conter a inundação, tentando não olhar pela janela.
Mas olhei.

A lâmina branca se tornara uma onda gigantesca avançando para a casa, vendaval de água barrenta e azul, com mil olhos, tentáculos semi-ocultos pela névoa formada por gotas iridescendentes

Fechei os olhos e Ele entrou.

Como antes, espatifou a cabeça sobre a cômoda, espalhou a areia e as conchas pelo chão e me derrubou no seu leito de mar.

Tomou meu corpo, me inundou, me transformou em água escorrendo por todos os bueiros, todos os rios, lagos, fontes e mares no mundo, me pediu em casamento de oceano.
Eu desagüei por dias, até Ele partir.

Quando se foi, arrumei a cabeça na cômoda, coloquei de volta conchas e areia. Ela estava muda.
Anêmonas murchas boiavam na água restante.
Varri, espanei, lustrei. E morri de amor.

7 Comments:

Anonymous Daisy Melo said...

Ai, Mhel... que lindo!

9:38 AM  
Blogger MilaF said...

Helena, mulher. Que loucura!
O que foi isso? Um sonho? Um desejo? Um suspiro?
Nem sempre é preciso entender para apreciar. A beleza não pede explicação.
Curti. Senti um frescor no meio do dia muito quente.
Beijos... poeta proseadora.

6:48 AM  
Blogger Roberta Nunes said...

Mhel, mulher!
Que coisa!
Que...loucura!
Tesão pro, pra uma canceriana afilhada de Iemanjá!
beijão
Ro

6:56 AM  
Anonymous Anonymous said...

Minha Troiana, adoro seus textos e como sempre serei seu maior fã...és mesmo uma Bandeira mesmo..
Bjos

7:40 AM  
Anonymous Amauri said...

Minha Troiana, adoro seus textos e como sempre serei seu maior fã...és mesmo uma Bandeira mesmo..
Bjos

7:41 AM  
Anonymous tania said...

Nooooossa,Mhel! Que encantamento!
Espetáculo em forma de texto.
Fui sentindo,sentindo,me envolvendo e me deixei levar junto com a história, sentindo a água invadindo tudo, como dona,soberana,tomando meu corpo junto ao da personagem e,finalmente, deixando para trás o rastro de sua dominação...
Sensacional!!! Parabéns!
beijos.

1:24 PM  
Anonymous Nariz Gelado said...

Pura inspiração, Helena.
Adorei.

6:22 PM  

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