Sunday, December 04, 2005



Foi no tempo em que o Mr Dog tocava bateria nos Cigarette Blues.

Mr Dog era amigo de Marina e parecia de outro mundo, distante do nosso. Andava sempre bem vestido e cheirado. Cocaína pura. Desconfio que era traficante. Nunca falou sobre isto ou qualquer coisa da sua vida, trancado no mundo blues do seu desespero.
Os meninos de rua gostavam dele, sabe-se lá porque. Pensei que fosse o pó, mas era mais. Andavam atrás como ratinhos, encantados pela batida, siderados no blues.

Mr Dog amava Cazuza. Tinha a ver.

E Marina, á moda dela, também amava Mr Dog. Uma corda de caranguejos, feito aquela das feiras de Pernambuco, todos nós enredados uns nos outros.

De vez em quando, ele deixava os meninos assistirem aos ensaios.

Cry me a river... Marina cantava, totalmente Holliday. A bateria acompanhava segurando os gemidos da guitarra de Billie e nós seguíamos junto, vendo os olhos brilhantes na viagem. Do pó e da música. Pobres cometas desconhecidos, andarilhos da rua.

Olhavam para Marina e seus cabelos dourados, como a diva que ela desejava ser. Todos nós, príncipes e princesas de fancaria.
Mas só Mr Dog era Deus, capaz de arrebentar nos pratos, estraçalhar o ouvido com o som que violentava a alma.

“ Dentro da tua orelha fria... Dizer segredos de liquidificador”

Cazuza na veia, codinome Beija-flor.

“Não responda nunca, meu amor (nunca) Pra qualquer um na rua, Beija-flor”

Ficavam ali, um ou outro, atrás do pó e em volta da música. A corte esfarrapada de Mr Dog, o escolhido de Marina e sua voz rouca de Billie: Summertimes.

Uma noite, fazia muito calor, a gente saiu para os cigarros e o café. A cidade era grande, muitos bares, afundamos na escuridão. Tequilas, camparis, caipirinhas, vodka, cerveja, rum. Conversas estilhaçadas. Marina beijou Mr Dog na boca, não acreditei. Billie morria com a mesma dor com que eu olhava para ele. Corda de caranguejos. Mimi cantarolava, descolou um caminhoneiro. Não sei como, descobria sempre algum, tinha faro.

Voltamos cansados e bêbado. As ruas subitamente escuras e quietas. Pisávamos no silencio, encantados.

Uma mão apareceu do nada, enfiou o revólver na cabeça de Mimi.
O grito dela estilhaçou a noite e nos fez parar.
Ao redor de nós, rapazes mal vestidos, debochados, formando um círculo que aprisionou o grupo.

- Passa a grana, ou a gente apaga a coroa aqui... rápido, rápido...

Olhei para Mimi e só consegui pensar – coroa... logo Mimi . Tinha vontade de rir, de nervoso, medo, dor.
De repente, Mr Dog quebrou o encanto.

- Para com isto, mané, são meus amigos.

A arrogância de homem se esvaiu. Virou outra vez menino.

- Mr Dog! Foi maus, parceiro, ta liberado.

Fez um sinal pros outros e já iam saindo quando viu a guitarra de Billie.
Humilde, se aproximou e perguntou:

-
Dá para tocar uma música pra nós? Se não for muito incômodo...

De cavalheiro para cavalheiro. Aceitamos.
Billie dedilhou a guitarra, fez a introdução:

“Agora eu vou cantar pros miseráveis...Que vagam pelo mundo derrotados...Pra essas sementes mal plantadas...Que já crescem com cara de abortadas...”

Mr Dog cantou imitando Cazuza:

“Vamos pedir piedade... Senhor, piedade... Pra essa gente careta e covarde...Vamos pedir piedade”

Os meninos ouviam, siderados. A guitarra gemia, pontuava...

“Senhor, piedade...Lhes dê grandeza e um pouco de coragem...”

O som ecoava entre as vitrines escuras, cercava as latas de lixo, escorria pelos bueiros, rondava as esquinas, colchonetes estragados, cobertores rasgados. Subia pelos rostos sujos e sérios, iluminava a todos nós. Sóbrios.

“Vamos pedir piedade...Pois há um incêndio sob a chuva rala...Somos iguais em desgraça

Uma leve garoa começou a cair. Iguais sob a chuva rala.

Vamos pedir piedade...

A guitarra gemeu ainda uns momentos, depois se calou. Ninguém disse nada.
Voltamos devagar, Mimi amparada por Billie.
Durante a madrugada, acordei com vozes alteradas. Olhei o corredor e vi Mr Dog saindo do quarto de Marina.
Nunca mais soubemos dele e Marina passou a beber sem parar. Pois há um incêndio sob a chuva rala.

6 Comments:

Blogger Vera Vilela said...

Esses seus textos fazem a gente se embalar nas músicas, dá pra ouvir o fundo musical... summertimes

Beijos

12:41 PM  
Blogger Moderado, o idiota said...

Boa tarde, Maria Helena.

Adorei. A riqueza do léxico nesta crônica me soou como música: Cazuza, figuras de linguagem e gíria chula, misturadas e não sacodidas na coqueteleira me fizeram viajar.

Me lembrou até um porre que tomei, há muitos anos, no show da Rosa Maria e acabei no palco cantando California Dreamin' com ela. Mas isso é história para não virar crônica.

Beijos e parabéns,

10:59 AM  
Blogger Rubens da Cunha said...

Di ir às lágrimas de tão lindo e triste.
beijos

2:35 PM  
Blogger Santa said...

Obrigada pela visita. Claro que podes usar a imagem do Naif, inclusive coloquei um link com outras obras muito bonitas tb.

Bjs

8:04 PM  
Blogger Santa said...

Quanto ao seu post. Lindo, tocante...
Bjs

8:04 PM  
Anonymous Nariz Gelado said...

Nossa...nossa.. Que coisa.
Depois de anos, ouvi esta música hoje pela manhã.

Que crônica, amiga!

6:31 PM  

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