Sunday, December 18, 2005

Meu rosto está lá.
Mas eu fiquei esquecida na mesa. Não sou esta mulher, com a qual o espelho tenta me enganar.

Estou em algum lugar onde esqueci a bola para que você viesse procurar. E me encontrar perdida, o vestido lívido do desejo, a boca espessa, procurando o conhecer do medo.
Lá na lembrança havia a pele do perigo que perdi nos retalhos do desespero. .

E os olhos. Os olhos de pedido que enlouquece.
Não me procure hoje com olhos de ontem. Não estarei mais lá.
Ficamos os dois na tarde do proibido e nenhum pode seguir caminho. Apenas corpos que se reproduzem através de dias. Apesar da seda que foi se abrindo em fendas, íris em que permanecem brilhos, cujo matiz esquecido já não toca o havido.

Não venha ao meu encontro neste espelho quebrado. Porque também estarei fingindo o dia que não é mais. Estarei outra e outros do não sei. Um homem que pensei entender mas foi tão cedo. Talvez tenha sido de brincar. A vida pode não ser à sério. Escondidas de nós as coisas bravas, mostrando sinais inexistentes .

Quando olho para mim no teu espelho é uma outra mulher que é. Não existimos mais. Nunca existimos. E a saudade na tarde da escondida bola, brincadeira, foi apenas uma falsa memória.

Sentado nesta mesa de um bar qualquer, num dia sem e me esperando, não é mais real do que a tarde cuja memória permanece do que não é.

Está mais profundo no passado do que estou agora neste instante em que a estranha do espelho acaba de chegar.

Sei que houve tudo e de saber vivo. Mas não de te encontrar em bares, ou de espreitar o espelho mentiroso.
De saber que em algum ponto ainda arde. Uma dobra talvez da antiga plenitude. A beleza que foi, tudo é presente.

É sempre hoje onde se quer de todo.

Saio do banheiro e fecho a porta com cuidado. Quero escapar outra vez de mim.

Na mesa você espera com olhos de ontem .Mas eu te apunhalo com a faca de sempre. O estilhaço do espelho que me viu.

Embriagado.

3 Comments:

Blogger parla marieta said...

Mhel, eu sei que você fica brava que eu falo, mas preciso falar:
Nessas horas, com atualizações como essas, e com tão magníficas imagens, de quem entende, de quem tem a arte no sangue, é que eu tenho vergonha de dizer que tenho um blog.
Querida, você é maravilhosa.
Beijos mil.
Parabéns.

8:34 AM  
Blogger Moderado, o idiota said...

Helena,

Boa noite.

Temos a mania infinita de, sem querer, sermos o que não semos. O espelho é cruel, mas o é menos que nós mesmos. Se somos o que pensamos que somos, o que pensam que somos ou o que realmente somos, é um enigma.

O espelho tem essa enigmática crueldade de nos revelar algo que estamos, mas, jamais, que somos.

Ontem, hoje ou amanhã, em essência, somos os mesmos. Meio mortos, meio perdidos, meio desamados, totalmente desarmados.]

Mas somos nós, estejamos outros ou não! E isso é o grande barato de ser. Mudamos, movimentamos, vivemos. Nunca e sempre os mesmos.

beijos!

p.s. Legal vc me alertar que, agora, tenho Helena no caixa 2 (ou não contabilizada) lá no blog - eu estava crente que era você. Na noite que li o alerta, entre vodcas que me amaciam a mente e flexibilizam a breguice, lembrei da letra do meu falecido amigo Land (Helena, Helena, Helena)
e quase soltei um post já preparando o terreno para o surgimento duma terceira Helena...

Ficou a lembrança, não o post!

1:20 PM  
Blogger Saramar said...

Helena, boa noite.
Esse Moderado, hein?? Um poeta escondido, ou melhor um poeta que se esconde.
Conheci este perfeito blog lá no Moderado e já está nos meus preferidos.
Voltarei sempre
Beijos
FELIZ 2006

4:48 PM  

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