Wednesday, May 02, 2007

Um pássaro que ainda canta

Imagem: Christopher Shy


Nestes dias alaranjados não sinto vontade de jogar.

Usei todos os braços e pernas disponíveis no meu estoque, algumas cabeças extragalácticas que comprei em Órion, com maior capacidade de discernimento. Não importa. Estamos todos iguais, não há o que inventar no Universo.

Apenas o Jogo nos permite escapar do Nojo inevitável.

Poderia sair navegando e comprar peças de reposição corporal, mas sou ferido pelo cansaço do próprio ato de criar.

Não consigo, nem com adrenalina incrementada, fazer brotar em mim a flor do Caos. Sinto falta da ordem antiga, que não conheci. A distopia me enjoa, pior, me entedia, me deixa frio.

O jogo dominou todos os espaços da interface virtual humana e atingiu os animais. Deploro os seres vivos que não conhecerei.

Mesmo assim, influenciado por Kalinda e seus bytes eróticos, vou repetir gestos inúteis, explodir outra vez mundos fictícios que não consigo distinguir dos reais.

Realidade é um conceito antiquado e fascinante.
Uma das poucas coisas, além de Kalinda, a me despertar tesão – um possível e improvável dado material, não mental.

Sei perfeitamente que é impossível. Como eu iria distinguir? O que é matéria? Tudo é criado por mim, infinitamente, até Kalinda.

Descarrego no Jogo meu tédio e minha ausência.

Percorro terras e mares de fogo, lanço chamas, destruo cabeças, pênis e vaginas, pernas e braços, estômagos abertos, eviscero corpos lançados ao céu laranja. Com dor, asco e inapetência.

De repente, meu cérebro Delubiano, o último que restava no arquivo, explode em dor.

Algo está errado. Não são estas as regras.

Linhas se cruzam ao redor de mim, edifícios surgem e desaparecem, fogo me envolve e se torna gelo, pássaros que nunca vi queimam e renascem. Estou colapsando de forma absolutamente nova.

Um sábio hindu que não conheci, me avisa ontem: É a morte.

Tento não acreditar, luto para sobreviver, mas percebo que é inútil. Minha mente anterior ao Caos está se apagando.

Ela era a realidade que tanto procurei. Tarde demais.

Ao longe, escuto um pássaro cego que ainda canta.


***********

5 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Pura poesia. Lindo.
beijos,
Tom

2:32 AM  
Anonymous tania said...

Não adianta. Mhel é sentimento puro. Lindíssimo, menina. O final é um poema em prosa, ou uma prosa/poema. Só posso dizer que consegues fazer de uma ficção científica onde outros colocariam tão somente destruição e máquinas, um cântico de amor à vida. Era o que ele buscava...
Adorei

3:44 PM  
Anonymous Ivan de Almeida said...

Helena;

É engraçado porque você diagnostica, mas não segue a receita -risos.

A fantasia é como uma garrafa de dois litros de Coca-Cola que vamos tomando enquanto esquenta sobre a mesa. O primeiro copo é ótimo, o segundo já passado, o quarto um xarope doce e enjoativo.

Para o leitor como eu que toma um copo por vez é bom. Para quem nela vive enredado, bem o seu personagem mesmo responde. Ao dar esta fala ao personagem, Helena, você mostra saber.

Bem escrito, com seu habitual artesanato.

Beijos

6:54 AM  
Blogger Nina said...

belíssimo, querida.
vc recriou a realidade.
beijos
Nina

9:45 AM  
Blogger Anne Baylor said...

caramba..
Que coisa..
Estou embasbacada com sua poesia.]
Muito intensa, muito forte.
Prazer em conhecer.
Bjo pra vc.

=]

9:22 AM  

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