Sunday, January 29, 2006

imagem retirada do sitehttp://www.jrcasan.com



Girando.. girando...

Ficava assim, braços levantados, mãos espalmadas, vento desarrumando o vestido. Magrinha, galho de árvore, gostava de sentir as gotas, no alto do morro, cabelos voando.

Bastava a chuva se anunciar nas montanhas e ela sumia de casa, aguardando o vento para girar até a tontura boa se apoderar dela e derrubar o corpo na terra molhada.

“Menina aluada, nasceu em noite de eclipse, ficou assim, sem juízo..”

As comadres se benziam quando passava, expressão distante. Não brincava com as outras, sua única alegria era encontrar o vento.

Castigos, prêmios, nada adiantou. Ao primeiro sinal, lá estava ela, cata-vento a rodopiar no meio da tormenta.

Prende-la em casa nos dias de chuva, só aumentou o desejo. Consumiu-se em doença maligna que nenhum chá ou mezinha conseguia curar. O doutor da capital, chamado às pressas, diagnosticou:
“é febre nervosa, a menina não tem nada, só tristeza.”

É quebranto - concluiu a vizinha, doutora em ervas, sabedora de coisas do coração -
Deixa a garota livre, mal não faz, se encontrar com o vento, é coisa dela, de escolha antiga.”

“Coisa de filha do eclipse”
– sussurravam os vizinhos.

Acabaram se acostumando e guiavam a projeção do tempo pela inevitável caminhada “pode tirar a roupa do varal, que a filha do vento passou pra cima, vem chuva na certa”

Ela, indiferente a tudo, girava, girava, cada vez mais forte, mais rápido, um pequeno e leve pião de carne.

Um dia, homens de longe chegaram.

Mal-encarados, a ninguém cumprimentavam em seus carros velozes. Subiam na direção do cume dos ventos, mas não era a eles que procuravam e sim coisas misteriosas, escondidas nas grutas. O povo falou um pouco, depois calou.

Continuaram suas vidas pacatas, deixando ao mal o que era do mal.

Quando a tormenta rugiu pela primeira vez naquele inverno, a filha do eclipse foi interceptada por mão grosseira –
“aqui ninguém passa.”

Lutou, tentou se esquivar, foi jogada rudemente no chão.

“Sai fora garota, pro seu próprio bem... chispa daqui, já!... “

Fitou os olhos frios e voltou, lágrimas salgando os olhos.

À noite, o homem, agachado junto à fogueira na entrada da gruta, viu o pião humano no alto do morro.

“Pestinha! Eu avisei”

Ajustou a mira e atirou. O vento deu um suspiro.

O frágil pião cambaleou, quase caiu, mas continuou a rodar, agora mais lento, levantando reflexos na chuva.

Atirou outra vez, mais outra, numa raiva insensata contra a pequena filha do vento.

Ela caía para um lado, para o outro, perdendo força... mas continuava a girar, sangue se espalhando em volta, chuva de paetês, bonito, bonito... e girando, e girando, o temporal empurrando seu corpo, sem parar, sem parar...

O homem atirou, atirou e atirou.

E a cada vez, o cata-vento ferido cambaleava, ameaçava cair, depois voltava a girar, girar, girar, alegre como uma risada de menina, como o gosto da infância perdida, até que as balas se acabaram, até que ele, vencido pelo cansaço, os olhos quase fechando de sono, caiu sobre as preciosas mochilas.

A última coisa que viu foi o frágil giroscópio, rodando no vento.

Inútil e absurdo como um coração.

Sem parar, sem parar de bater.

5 Comments:

Blogger Cláudio B. Carlos (CC) said...

Oi!

Muito bom.

Beijos do *CC*

10:37 AM  
Blogger Leila Silva said...

Mhel,

Que bom que arrumou tempo para atualizar...E com um texto excelente, parece que já o tinha lido antes, mas não tenho certeza.
Beijos

11:25 AM  
Anonymous Daisy Melo said...

Mhel,
eu já tinha lido esse conto lá nos anjos (aliás já li seu que está lá e em outros lugares...)

lindo e angustiante...

ainda bem que vc atualizou o ovo... quem sabe não me animo e e atualizo o "Zôiudo", também?

mil beijos

day

12:34 PM  
Blogger Jean Scharlau said...

Que coisa mais triste! Tantas meninas e meninos do vento, das águas, da vida, abatidos a tiros e sem que ninguém entenda ou se importe - temos que parar o mundo que gira assim e fazê-lo girar para o outro lado, agora e amanhã e depois.

8:24 PM  
Anonymous Anonymous said...

Élena, minha grande paixão!

Já conhecia este texto. Mas, talvez em função do tempo, ele tenha ganhado uma nova dimensão. Está mais forte, mais cru, mais brutal. Seu lá... Gostei!
Um beijo
Mar

12:01 AM  

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