Wednesday, July 27, 2005

Docemente

Sim, eu morri mil vezes. Atravessei o inferno e fui esmagada pela certeza. Onde encontrei forças para ainda estar? Ninguém pode dizer... havia um talvez excessivo na minha história, manchas de poluição emocional, sujeiras infinitesimais de afetos. Mas a luz, quando veio, foi absoluta lâmina.
Traição, o que é traição? Por acaso sou dono do meu irmão, do meu amigo, do meu amor? Deuses! Quem são os deuses para me julgar? Eu morri, estou morta, é meu corpo que não pedi para usar, me emprestaram com juros. Devolvo agora. Sou muito mais do que ele, sou muito mais do que sorrisos na brisa de setembro, muito mais do que as uvas, cujo sumo escorria no seu queixo aquela sexta-feira. Muito mais do que cada pedaço do nosso cotidiano esfrangalhado. Não quero nada. Nunca desejei nada. Só um gesto de carinho e era tudo. Docemente.
Como tem a coragem de dizer que eu ainda não morri? Estou morta, enterrada, virei pó de estrelas, sumi na poeira dos tempos, eu morri há mil anos atrás, me desintegrei, muito antes dos meus sonhos terem se tornado adubo debaixo das arvores de ontem... ouviu? Você me ouviu?
Caronte me olhou frio.
A bruma era espessa e a água se espraiava oleosa, cinzenta. Gotas de silêncio escorriam entre nós.
Sem palavras, ele me estendeu a mão para o barco. Havia uma pequena gentileza no gesto.
Longe, muito longe, Billie gemia rouca: chore-me um rio.
Um porta bateu.
Passos em direção ao meu corpo, uma mão que me toca devagar ah, tão docemente...
Mas eu já não era.

2 Comments:

Anonymous Jota said...

Para que não pense em "ingratidão", aqui vim.
Com prazer li algumas coisas - outras ficarão para uma próxima oportunidade.
Parabens
Jota

11:42 AM  
Anonymous Anonymous said...

Quem é que traiu quem?
Chifres na cabeça dos outros são bonés, já diria Heráclito.

12:34 AM  

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