Friday, August 26, 2005

Under My Skin

“So deep in my heart...”


Estava lá de novo.


O cabelo oleoso, a franja meio ondulada, batom que ultrapassava os lábios murchos, grandes olheiras de rímel e vida.

Copo de uísque falsificado na mesa, o cigarro entre os dedos e sorriso gasto.

Vinha sempre pedir a mesma música, no final do espetáculo quando a maioria dos fregueses já tinha ido embora e era possível resgatar os blues na guitarra desafinada

Blues... cada um de nós.. blues

No vazio indeterminado da noite empoeirada de estrelas, saíamos para um café fumegante. Mimi, os cacho dourados desalinhados, procurando um espelho antes do xixi. Marina emburrada por causa dos caminhoneiros. E Billie, o meu Billie olhos de fumaça e cafeína.

E a mesma música na madrugada, lamento fundo da guitarra e da voz anasalada de Marina I’ve got you under my skin”... yaaa I‘ve got you... under... uuuuunder... uuuunder my skiiiiiiiiiiiiiin...

No fim do espetáculo ela ia embora, a dignidade intacta, e deixava umas notas amarfanhadas sobre a mesa.

Todas as vezes em que voltamos a São José do Imbassaí estava lá. Esperando e pedindo a música de sempre.

Depois nem isto. Era olhar para ela, esperar a saída dos clientes das baladas medíocres, dos faroestes caboclos, para deixar sair a música enfartada, quase doente dos verdadeiros cigarette blues. Under my skin.

Uma noite falhou.

A cadeira vazia me cortou. Via o dente dourado de Billie na fúria da guitarra me chamando e não conseguia acompanhar... aperto no coração... under my skin.

Duas noites depois reapareceu.

Antes mesmo da sessão coruja do rasga coração, fui procurá-la em sua mesa.

Sorria, os dentes estragados entre o batom que extravasava os lábios. Os olhos pintados eram sérios e brilhantes.

- Você não veio... sentimos sua falta...

Palavras vazias, tentativa de estabelecer um contato impossível.. o que eu fazia ali, meu Deus? Apanhei um cigarro e pedi fogo, ela colou a guimba dela sem dizer palavra.

Me preparei pra sair, quando respondeu:

- Ele voltou.
- Voltou?.. repeti estupidamente - que bom.
- É foi bom mesmo... tantos anos depois. Como se não tivesse saído. Estamos juntos outra vez acredita?

“ Não” mas respondi com um sorriso falso
- Claro.

Os olhos dela brilhavam. Seriam lágrimas? Merda de vida.

Billie sorriu para nós e começou

“ I’ve got you”...

Ela umedeceu a lingua ligeiramente, aspirou a fumaça e repetiu.. under my skin

Lá fora era clamorosamente dezembro.


4 Comments:

Blogger Leila Silva said...

Mhel

Sou fã do seu Cigarette blues...Espero um dia vê-los reunidos.
Beijos
Leila

5:03 AM  
Blogger Moderado, o idiota said...

Uma mulher que desama a própria vida, mas tenta enfeitá-la. Sorve sofrimento pela boca e paixão pelos ouvidos. E repete, quase autista, a mesma rotina de dor. Espera o quanto for preciso para poder recordar, sempre, sua dor nos mínimos detalhes. Uma dor que conquistou simpatizantes. Na curta ausência do amor não precisou sofrer. Mas tudo que ela queria era sofrer de amor.

Não sei se entendi bem, Helena, mas, pelo menos, Tico e Teco trabalharam um pouco.

Lindo texto.

bj,

6:38 PM  
Blogger Helena said...

Você entendeu muito bem, Moderado. Os cigarette blues são esta coisa incongruente, uma pobre banda de blues suburbana que percorre o interior do Brasil.
Nesta trajetória encontram personagens como eles, apaixonados e perdidos, esfarrapados amantes deste tipo de música.
Neste caso foi a mulher que afirma seu dor de amor - com quem a protagonista se identifica.

beijos

7:28 PM  
Blogger Moderado, o idiota said...

Pois é, Helena. Mas alguém um tanto brilhante há muito definiu amar como um verbo intransitivo.

Beijos e boa noite

8:35 PM  

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