Sunday, February 05, 2006

PELA DEUSA


Pintura Gustav Klimt


Eu acreditei em Petrus Amon Teth, o Elevado.

Como todos naquela época.

Enviei discos de propaganda que percorreram o território Valgoo e alimentei com meu leite as simbalas, abatidas para o banquete da vitória. Gastei os próprios pés e mais alguns, adquiridos em Moebius seguindo seus shows e comícios, trançando guirlandas de abelhas, atirando em ziguts inimigos, bebendo sangue ardente nas noites sem luas.

No dia da vitória estava na primeira fila dos barcos, singrando o mar de algodão em direção ao Zenith.

Fui lâmina e lupa, pesadelo e esperança. Eu fui seu tudo e seu nada, seu meio e seu fim.

Vi o exercito petroriano esmagar as populações que comerciavam às margens do Estinges e derrubar os muros de Alma e Singhor. Acompanhei os passos da decadência quando fartos de carne e luxuria se amontoaram em carniças nos diques de Alambra.

Cada vez mais gordo e oleoso, os cabelos grudados ao crânio redondo, vi sua imensa boca jamais saciada, seu pênis nunca flácido, a procura de toda a comida humana ou zigota, ardeliana, almíca ou singhata. Vi-o abandonar a luta, se entregar à devassidão e ao ócio.

Então eu decidi agir.

Todas as luas negras, Petrus levantava dos coxins o enorme corpanzil e era carregado até as águas da purificação. Lá, em meio ao fedor do enxofre e ao borbulhante líquido azulado, pedia perdão à Deusa e ofertava nove jovens virgens nuas a Seu serviço.

Eu estaria entre elas. Manobrei para conseguir, subornei, comprei, menti e matei. Virgem não sou, mas me tornei. Em Moebius comprei a peso de ouro um corpo escultural. Conhecia, como ninguém, o gosto de Petrus.

Durante o ritual, trabalhei para que me visse, para que seus olhos contemplassem minha beleza e mocidade. Triunfei.

Vi olhos ávidos me percorrerem, dancei como nunca, como sabia que era preciso.
Ele desafiou a Deusa e me chamou para a sua tenda.

A lua negra pesava e relâmpagos cortavam o ar em chamas violetas. Um silêncio mole percorria as flores apagadas ao redor. Soprava um vento de cadáveres.

Entrei na tenda e me curvei. Ele flechou meu corpo, me despiu. De todo jeito o satisfiz, como prostituta cristã, marafona zagaia, cortesã de alambra.

Chafurdava ainda em mim quando o raio de Lilith penetrou a tenda, gelado.

Deu um salto, assustado, gelatina de pavor .
Tarde demais. Nossa Deusa entrou pelos seus olhos, comeu os ouvidos, derrubou o sexo pagão.
Quando os outros o encontraram, remoçado e alegre, era Petrus Amon Teth na aparência.


Na verdade era eu.

7 Comments:

Blogger Vera Vilela said...

Não dá prea comentar, quem sabe, sabe,
Maravilha!
to aqui babando!

2:03 PM  
Anonymous Anonymous said...

Mehel, Mehel...! Sabia que você era ótima, mas me emocionei!!
Beijos,
K

3:49 AM  
Anonymous Rita Maria Felix da Silva said...

Mhel,


Um texto realmente fantástico! Brilhante e lírico na execução e perfeito na narrativa até o final (que foi surpreendente).
Sem dúvida, um de seus melhores textos.
Parabéns


Rita.

8:19 PM  
Blogger Saramar said...

Recorri a todos os meus entes ligados à terra, à mãe e ao ser neste mundo para tentar me aproximar dessa poderosa mulher. Ainda não consegui. Terei que voltar com outros olhos e mais profundo entendimento.
É perfeito.

5:59 PM  
Blogger Moderado, o idiota said...

Oi, MHel

Tenho que achar meus escritos sobre a teoria teológica da Deusa, depois chamada de mãe de Deus, de mãe Natureza, de Gaia. A deusa hermafrodita que em dois se dividiu.

Não sei onde guardei isso. Pior, pesquisei por anos.

Um dia eu acho.

Ah! Com o bracinho melhorando, devo publicar aquelas poesias da adolescência semi-eterna. Preciso é alguém na digitação: dói demais.

Beijos e saudades,

Moderado, do caixa 1

5:33 PM  
Blogger Leila Silva said...

oi, Mhel!

Raul Seixas? rs...Vc é multi mesmo.
Klimt também é bom e seu conto então...nem se fala.
Deu num belo post, claro.
Beijos

11:52 AM  
Blogger Cláudio B. Carlos (CC) said...

Muito bom, como sempre.

Beijos do *CC*

2:00 PM  

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