Monday, December 29, 2008




TEIA



E então....

Havia goteiras no telhado por onde entrava uma chuva comprida, fio de mel. Sentada na cadeira do poente, ela bordava. Vestia o casaco azul em que morava o lago, beijava o canário e consultava o céu aguado e cinza. Criava desenhos – carneiros, roda de meninas, relógio de sol. Puxava fios invisíveis para fazer dançar os encantados do tempo.

A água escorria na vidraça em ré e o fogo respondia em dó. O soldado morto repousava rindo no retrato da antiguidade. Ela costurava vidas. Com laçadas finas ia combinando pares, descosendo amores, refazendo casas, destruindo. Dentes serrilhados cortavam o fio, sopro se apagava. Longe, na fímbria do mar, marinheiro perdia o rumo, barco se estilhaçava no rochedo. Ela molhava o pano com lágrimas sutis.

Depois sorria, retomava o bastidor e o moço alegre beijava a menina de vestido azul. Lábios macios procuravam seios, boca de gerânio, perfume de alecrim. Os dedos rápidos uniam, os dedos finos descasavam. Quando cansou de tecer, chuva se fora. Mil estrelas cairam sobre ela, chuveiro de brilhantes. Explodiu algumas só de brincadeira.

Seu sono demorava, mas quando vinha latejava forte. Abandonou a teia. Canário cantou para dentro, ela soprou um beijo de mormaço, despiu o casaco onde morava o lago e se deitou na trave da cozinha.

Dormiria mil dias e com ela o mundo. Parado. Os relógios, sem tempo. As pessoas, sem alma. Os barcos, no cais. Mares, congelados. Pares, eternamente juntos. Os assassinos com a faca na mão, gesto cortado. O grito suspenso nas bocas do medo.

De repente...

O soldado morto no retrato que sorria antiguidade entrou cantarolando na casa adormecida. Consertou as goteiras no telhado e a chuva derrubou torrentes na vidraça, sopa de melado. Sentou na cadeira do poente e cantou o amor. Beijou o casaco azul onde morava o lago, acordou o canário belga e riu para o poente vermelho da descoberta. Desfez os bordados da espera, rasgou teias de tempo, reacendeu o fogo que cantou em dó.

Da trave do teto ela suspirou. Caiu suavemente nos braços do soldado renascido da morte.

E o mundo despertou.

2 Comments:

Blogger MilaF said...

Helena...
Que lindo!!!
Você já leu algo da Marina Colasanti?
Esse texto me lembrou muito o padrão de texto dela, mas com o teu toque pessoal, é claro.
A Marina é uma das poucas autoras capazes de me causar arrepios de puro deleite diante da beleza.
Você acabou de fazer isso também.
:-)

1:23 PM  
Blogger Elaine Duarte said...

Oi Maria Helena, passei por aqui para conhecer seu Blog e estoua adorando!!

Abraços,

Elaine

12:22 PM  

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